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Mãe presente não é a que faz tudo

Esses dias eu vi um vídeo na internet criticando o discurso da “mãe presente”, dizendo que isso estaria criando gerações mimadas, frágeis e incapazes de lidar com a vida. Confesso que esse tipo de fala me chama atenção, não só pelo tom, mas pelo momento em que a vivemos. Estamos, como sociedade, entendendo cada vez mais sobre a importância do vínculo, da presença dos pais, da formação emocional das crianças, e isso não surgiu do nada. Existe um movimento de valorização da maternidade, de conscientização sobre o impacto da presença no desenvolvimento infantil, sustentado por estudos, observações clínicas e por uma revisão honesta de muitos erros que foram naturalizados por gerações.


Talvez por isso seja importante esclarecer do que estamos falando quando falamos em “mãe presente”. Porque presença não é permissividade, não é ausência de limites, não é viver em função de atender todos os desejos da criança. Presença não é criar filhos sem frustração. Presença é algo mais exigente e, ao mesmo tempo, mais silencioso: é estar emocionalmente disponível, sustentar limites, acompanhar processos internos que não se resolvem com rapidez e não se consertam com uma solução prática.


O problema é que, no meio desse movimento legítimo de valorização da presença, muitas vezes a presença acaba sim sendo confundida com o “fazer por”. Fazer pelo filho, adiantar seus passos, resolver suas dificuldades, evitar que ele passe por incômodos, poupar de frustrações que parecem pequenas demais para valer o desgaste. Esse impulso nasce de lugares compreensíveis: cansaço, pressa, medo de errar, culpa por ver o filho sofrer, desejo de facilitar a vida de quem a gente ama. Só que, aos poucos, esse “fazer por” vai ocupando o lugar da presença e transforma cuidado em substituição.


É aqui que mora a virada mais desconfortável da conversa, porque ser uma mãe presente, de verdade, não é mais fácil do que “fazer por”; muitas vezes, é mais difícil. Exige permanecer quando a criança se frustra, sem correr para resolver por ela. Exige sustentar o limite quando ceder seria mais rápido e menos cansativo. Exige tolerar o tempo da criança quando o nosso mundo interno pede eficiência. Exige ficar no desconforto da cena sem anestesiar a emoção do outro. A presença pede um tipo de maturidade emocional que não aparece em gestos grandiosos, mas no cotidiano em que a gente decide não fugir da experiência difícil.


Existe uma diferença profunda entre “eu faço por você” e “eu estou com você enquanto você faz”. Quando fazemos por, a criança aprende que alguém sempre virá resolver. Quando estamos com, ela aprende algo mais estruturante: que é capaz de atravessar dificuldades sem estar sozinha. O vínculo oferece segurança para que ela se arrisque a tentar, errar, frustrar-se e tentar de novo. A presença não elimina a frustração; ela cria um solo seguro para que a frustração não vire abandono interno.


No fundo, a crítica à “mãe presente” costuma confundir presença com ausência de limites, quando, na verdade, a presença verdadeira sustenta limites com mais firmeza, não com menos. Uma criança que se sente vista, acompanhada e segura não se torna mimada por isso; ela se torna mais organizada por dentro para lidar com o mundo. O vínculo não cria fragilidade, ele cria base. É essa base que permite que a criança, aos poucos, suporte frustrações, desenvolva autonomia real e construa recursos internos para enfrentar a vida sem precisar que alguém faça tudo por ela.


Talvez a gente precise amadurecer essa conversa como sociedade. Valorizar a presença das mães e dos pais, reconhecer o papel do vínculo e da formação emocional das crianças não é romantizar a infância nem criar adultos frágeis. É assumir, com mais consciência, que pessoas se formam de dentro para fora, e que a qualidade da presença que oferecemos hoje tem impacto direto na qualidade da autonomia que nossos filhos poderão sustentar amanhã.

 
 
 

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